
Você deve estar se perguntando – como assim? A fotografia não “pega” as pessoas – elas é que decidem aprendê-la. Bem, nem sempre. Existem vários fotógrafos, cantores, artistas, entre outros, que despertaram para algo completamente novo a partir de algum evento ou momento em sua vida. Sebastião Salgado, o monstro sagrado mundial da fotografia documental, somente contemplou a ideia de ingressar na fotografia quando um dia sua esposa Leila comprou uma câmera e ele resolveu clicar algumas fotos. O seu interesse e relacionamento com a fotografia começou a crescer a partir daí.
Em minha história também houve um momento que posso definir como o ponto de partida. Eu tive a oportunidade de viver nos EUA por quase 15 anos, e certo dia estava eu em meu quarto que dividia com um amigo que estava separando algumas fotos que havia feito para enviar à sua família no Brasil. Uma das fotos me chamou a atenção e pedi para vê-la em minhas mãos. Era uma foto que ele havia feito da janela do avião que naquele momento sobrevoava o oceano. O sol havia acabado de se por e no horizonte havia uma “linha de fogo” que se decompunha em diferentes tons rumo à tons mais escuros. A asa do avião intersectava esta linha. Fiquei absolutamente mesmerizado com esta linda imagem e perguntei a ele como a havia feito. Ele me mostrou a câmera que havia usado, uma dessas antigas, que havia emprestado de seu avô, que por sua vez havia lhe passado algumas instruções básicas de como operá-la. Ele não sabia absolutamente nada sobre técnicas fotográficas – foi um golpe de sorte mesmo.
Resolvi então pedir aquela câmera emprestada para que eu pudesse tirar algumas fotos para enviar à minha família também, e ele concordou. No dia seguinte, comprei um rolo de filme (sim, foi na idade da pedra mesmo) e segui as instruções que o meu amigo havia me repassado sobre a operação da câmera (uma Yashica, eu me lembro). Não ficaram tão ruins, amadoras, mas não muito ruins. Então decidi comprar a minha primeira câmera (uma canon T80, a primeira câmera autofoco do mundo) e logo enviar fotos pra família virou um hábito. Mas queria aprender mais, então comecei a comprar revistas e livros sobre fotografia e a aproveitar qualquer curso de fotografia disponível em minha região. Logo percebi que precisava de uma câmera manual, então vendi a T80 e comprei uma Canon AE1.
Não demorou muito para a fotografia virar uma obsessão – saia para fotografar todos os finais de semana. Naquela época eu morava a 40 minutos de Nova Iorque, de carro ou de trem, então este foi um importante e prolífico laboratório para o meu aprendizado.
Quando fotografo, me encho de energia, como acontecia quando estava começando a descobrir mais e mais sobre ela. Sempre digo aos meus alunos que a fotografia tem o poder de mudar a maneira como enxergamos o mundo à nossa volta. Bem, ela definitivamente mudou o meu mundo e o meu olhar – e o continua fazendo! E o que mais me fascina hoje é o fato de que sempre tem algo novo pra se aprender, tem sempre alguém que fotografa melhor do que você, usa uma técnica inovadora e única. Nunca se para de aprender.
Então ai está, a fotografia pode cair de paraquedas na vida de qualquer um. Mas isso não significa que você tenha a obrigação de se tornar um profissional – você pode ter a fotografia em sua vida como uma maneira de enxergar mais deste mundo maravilhoso que nos cerca, de descontrair e desconectar das loucuras do dia a dia, e de registrar tudo isso também!


